| Decifra-me, se tiver coragem (parte 1) | | Imprimir | |
|
“É totalmente ilícito exigir, defender ou conceder incondicionalmente a liberdade de pensamento, expressão ou culto, como se esta fosse um direito natural ao Homem”. Papa Leão XIII
1 Sigmund Freud (1856-1939), pai da psicologia moderna, costumava dizer que, onde há proibição, nasce o desejo. Talvez este seja o argumento que possamos usar ao dizer que grande parte das teorias modernas sobre a astronomia surgiu num tempo onde era proibido questionar, debater e pesquisar. Mergulhados num mundo onde as escrituras sagradas detinham a verdade absoluta, alguns cientistas e matemáticos do obscurantismo procuraram respostas que fossem mais satisfatórias aos grandes mistérios do Universo. E encontraram. No ano de 1533, chegou às mãos do papa Clemente VII um manuscrito intitulado ‘Pequenos Comentários de Nicolau Copérnico em Torno de Suas Hipóteses sobre os Movimentos Celestes’. Curioso, Clemente VII viu que nas páginas daquele manuscrito o professor anônimo Nicolau Copérnico (1473-1543) afirmava que o sol não girava em torno da Terra, como diziam as escrituras, mas que todos os planetas, inclusive a Terra, giravam em torno do Sol. O manuscrito finalizava com a frase “O movimento da Terra já basta, portanto, para explicar as diversas desigualdades aparentes no céu”. Clemente pediu que o jovem fizesse a exposição de sua teoria em Roma, pois ao contrário da maioria dos papas da época, era um visionário que apoiava a ciência e pretendia, através da ciência, situar com maior precisão os eventos históricos narrados na bíblia. Após inteirar-se da teoria, pediu sua publicação, mas Copérnico pediu um prazo maior, pois queria publicá-la integralmente. A idéia, apesar de ter sido defendida séculos antes por Pitágoras e Aristarco de Samos, carecia de comprovações matemáticas, missão que coube a Copérnico e que foi realizada com êxito. O livro ‘As Revoluções da Orbe Celeste’ foi publicado em 1542, um ano antes da morte do astrônomo. Clemente VII já havia morrido e o novo papa, Paulo III, não compartilhava o mesmo entusiasmo em relação à ciência do que seu antecessor. O prefácio do livro foi escrito pelo luterano Andreas Osiander (1498-1552) e chegou às mãos de Copérnico alguns meses antes de sua morte. A obra foi condenada pela igreja, mas diversas cópias haviam sido feitas e foram guardadas em sigilo em diversas universidades da Europa. O manuscrito original está guardado até os dias de hoje no Colégio Maius, na Cracóvia. Muitos papas lamentariam, posteriormente, a decisão de Clemente VII em ter dado liberdade de publicação para a obra de Copérnico. Por toda a Europa, a descoberta era vista com assombro pelos estudiosos e muitos começaram a questionar as verdades absolutas pregadas pela igreja. Na Universidade de Copenhague, o adolescente Tycho Brahe (1546-1601), de apenas 13 anos, presenciou um eclipse do Sol e ficou estarrecido quando descobriu que o evento havia sido previsto com exatidão por Copérnico. Apesar de estudar direito, o jovem ficou fascinado ao descobrir que a teoria geocêntrica estava errada e que o eclipse era a prova disso. Começou, então, a estudar astronomia, tornando-se autodidata no assunto. De posse de algumas tabelas astronômicas, percebeu que outros eventos que haviam sido previstos estavam errados, alguns com até um mês de diferença. Decidiu que poderia criar uma tabela mais precisa, e foi o que fez. No entanto, sua teoria dizia que todos os planetas giravam em torno do Sol, mas que este girava em torno da Terra. Em 1572, percebeu que uma nova estrela havia surgido na constelação de Cassiopéia. Esta estrela era quase tão brilhante quanto Vênus e podia ser vista até durante o dia, o que era um fenômeno bastante incomum. A estrela refulgiu por 18 meses e, então, desapareceu. O acontecimento contestava a máxima de que o céu era imutável. No ano seguinte, Thyco escreveu o ensaio ‘De Nova et Nullius Aevi Memoria Prius Visa Stella’ (Sobre a Nova e Previamente Nunca Vista Estrela)(01). O ensaio trouxe-lhe fama imediata. O rei da Dinamarca, feliz por ter um gênio em suas terras, presenteou-o com a ilha de Hveen e financiou a construção de um observatório para ele. Em 1600, um ano antes de morrer, contratou um jovem, Johaness Kepler (1571-1630), para ajudá-lo nas observações. Antes de trabalhar com Brahe, Kepler era calendarista na cidade de Graz, na Áustria. Seu trabalho consistia em prever o clima, guerras, epidemias e até eventos políticos. Apesar de realizar esse trabalho com afinco, ele era cético a seu respeito, tendo escrito em um de seus ensaios: “Os céus não podem causar muitos danos ao mais forte de dois inimigos, nem ajudar o mais fraco (...) Aquele bem preparado supera qualquer situação celeste desfavorável”. Para garantir que seu trabalho não refletisse erros de sua parte, ele disfarçava prognósticos em suas previsões, ajudando a prevenir doenças. Em 1597, ele escreveu seu primeiro livro, ‘Mistérios do Universo’, onde defendia o heliocentrismo e estabelecia uma órbita diferente para cada planeta. Em 1600, foi expulso da Áustria por negar a conversão ao catolicismo e foi trabalhar para Tycho. Após a morte deste, foi nomeado matemático imperial. Entre suas maiores obras estão a descoberta da órbita elíptica de Marte e a observação da Nova de 1604. Em 1614 tornou-se mais ousado e escreveu o ensaio ‘Sobre o Verdadeiro Ano em que o Filho de Deus assumiu a Natureza Humana no Útero da Sagrada Virgem Maria’. Nesta obra, ele afirmava que o calendário cristão estava errado e que Jesus nascera, na verdade, no ano 4DC. Passou os três anos seguintes escrevendo o ‘Compêndio da Astronomia Copernicana’, sete volumes que se tornaram a maior referência da astronomia de seu tempo. Passou os cinco anos seguintes defendendo sua mãe no tribunal da Santa Inquisição, que a havia acusado de bruxaria e, em 1620, publicou uma tabela de eventos que, devido à sua exatidão, transformaria em realidade o sistema heliocêntrico. Por defender o sistema de Copérnico, foi perseguido pelos protestantes da Reforma e obrigado a se refugiar em Praga, onde encontrou proteção junto aos jesuítas. Tendo seu nome associado à astrologia por vários anos, antes de morrer ele escreveu que “Meus corpos celestes não foram estudados com base no nascimento de Mercúrio na sétima casa em quadratura com Marte, mas em Copérnico e Tycho Brahe; sem suas observações, tudo o que eu pude trazer à luz estaria enterrado na escuridão”. Morreu em 1630, acometido por uma doença misteriosa. No ano de 1610, o italiano Galileu Galilei (1564-1642) visitou uma fábrica de vidros em Veneza e encomendou uma série de lentes côncavas que causavam uma distorção nos objetos, fazendo-os ficarem maiores. Levando as lentes até seu escritório, ele montou aquele que seria o primeiro telescópio da história. Até então, a navegação experimentava o uso de lunetas para avistar as costas dos continentes e vasculhar o mar em busca de piratas. Galileu apontou a sua para o céu numa noite sem nuvens. O que viu deixou-o estarrecido. Havia muito mais estrelas do que era possível visualizar a olho nu. Conhecedor de astronomia e, portanto, consciente dos movimentos dos planetas, ele apontou o telescópio para Júpiter e descobriu, com alguma consternação, que o planeta era acompanhado por quatro objetos que também refletiam a luz do sol. A disposição dos objetos fazia lembrar um colar de contas, e Galileu focou-os durante muitas noites. Estes corpos, as quatro maiores luas de Júpiter(02), receberam, mais tarde, o nome de mundos galileanos, em homenagem ao seu descobridor. Viu também que a Lua era um mundo repleto de montanhas e crateras e não liso e perfeito como diziam seus antecessores. Calculando o movimento de Júpiter, da lua, de Vênus e de outros mundos do sistema solar, ele percebeu que Aristóteles, cuja afirmação dizia que todos os corpos giravam em torno da Terra, estava errado. Descobriu, também, que havia outros que pensavam como ele e logo tratou de manter correspondência com estes astrônomos e matemáticos. Assaltado pela descoberta, tratou de divulgar suas experiências. Naquele mesmo ano, publicou o estudo Siderius Nuncius (Mensagem Celeste), obra que lhe garantiu a cátedra de Primeiro Matemático da Universidade de Pisa. No ano seguinte, percebeu que Vênus apresentava fases, assim como a Lua, e que, portanto, não podia orbitar a Terra. Colocando um filtro no telescópio, foi o primeiro a perceber que o Sol era repleto de manchas e que elas se moviam. Chegou à conclusão de que o Sol também tinha rotação. Todas as descobertas de Galileu eram publicadas em italiano, de modo que a ciência pudesse chegar a todos os cidadãos. O povo tinha o direito de saber a verdade e várias cópias de seus estudos foram encaminhadas às universidades italianas, bem como traduzidas para outros idiomas. Foi, talvez, o primeiro homem a tentar popularizar a ciência e este fato chamou a atenção da Inquisição, que via na teoria heliocêntrica uma heresia, pois a bíblia dizia que “Deus colocou a Terra em suas fundações, para que não se mova para todo o sempre” (Salmos 104:5). Em fevereiro de 1616 recebeu uma advertência da igreja católica, a pedido do papa Paulo V, proibindo-o de divulgar suas idéias. Com o tema finalmente descoberto pelos inquisidores, no mês seguinte todas as obras de Copérnico foram anexadas no Index Librorum Prohibitorum, o Índice de Livros Proibidos da ICAR, vigente até os dias de hoje. O cardeal Belarmino, que havia ficado encarregado de comunicar a Galileu as conclusões dos teólogos, veio a público dizer que “afirmar que a Terra gira em torno do Sol é tão errôneo quanto afirmar que Jesus não nasceu de uma virgem”. No entanto, em uma carta que escreveu ao carmelita Pe. Foscarini, mostrou bom-senso e ceticismo ao dizer que “o senhor Galileu age prudentemente quando limita-se a falar em ‘suposições’ e não de modo absoluto, como foi o modo de expor de Copérnico. (...) Se for verdadeira a demonstração da teoria de que a Terra gira em torno do Sol, então será necessário tomar muito cuidado ao explicarmos as Escrituras, que parecem ser contrárias, e melhor ainda, dizer que não as entendemos, ao invés de dizer que é falso aquilo que é verdadeiramente comprovado ”. Aproveitando-se do discernimento de Belarmino, Galileu, duvidando que a ignorância pudesse subjugar o raciocínio, escreveu diversos ensaios onde condenava a igreja e questionava a soberania católica. Na obra ‘Principais Sistemas do Mundo’, ele diz que “Quem poderia duvidar que leve às piores desordens quando mentes que Deus criou livres são compelidas à submissão escrava a uma vontade externa? Quando nos dizem que devemos negar a evidência de nossos sentidos e sujeitá-las ao capricho de outros? (...) São essas as novidades capazes de levar à ruína das comunidades e à subversão do Estado”. Grande entusiasta de parábolas, ele também escreveu que acreditava que “Os filósofos voam como as águias e não como os corvos. É bem verdade que as águias, por serem raras, oferecem pouca chance de serem vistas e muito menos de serem ouvidas, e os pássaros pretos, que voam em bando, param em todos os cantos enchendo o céu de gritos e rumores, tirando o sossego do mundo”. A sorte caminhava ao lado de Galileu, pois em 1623, seu amigo e patrono Cardeal Maffeo Barberini foi eleito papa, assumindo o nome de Urbano VIII. No ano seguinte, após seis audiências com o novo papa, Galileu foi liberado a escrever sobre a teoria copernicana, desde que fosse tratada apenas como uma hipótese matemática. Galileu passaria os anos seguintes escrevendo e publicando diversos diálogos(03), aproveitando-se de sua influência junto ao novo papa. Em um deles, o personagem Salviati fala que “É certamente prejudicial para as almas tornar uma heresia acreditar no que é provado” e que “Não consigo acreditar que o mesmo deus que nos deu inteligência, razão e bom senso nos proíba de usá-los”. O momento crucial na vida de Galileu veio com a publicação do livro ‘Diálogo dos Dois Mundos’, em 1632, onde põe a prova todas as suas ideologias. No ponto máximo do diálogo, o personagem Sagredo, que representa a voz do ceticismo e do empirismo, fala para Simplicio, figura que simula os ortodoxos e ignorantes: “Como assim? Estás afirmando que a natureza concebeu e produziu tantos e tão vastos corpos celestiais, nobres e perfeitos, invariáveis, eternos, divinos, sem nenhum outro propósito que o de servir a esta Terra mutável, transitória e perecível!? Servir a isto que chamas os detritos do Universo, e esgoto de toda a imundície?”. Convenhamos que ele deve ter conseguido alguma inspiração em Sêneca quando escreveu essas linhas. No ano seguinte a este diálogo, Urbano VIII não resistiu à pressão dos teólogos fundamentalistas e pediu que Galileu comparecesse ao tribunal da Inquisição. Levado até Roma, aos setenta anos de idade, o matemático apresentou-se com a saúde frágil e Urbano VIII, ainda tendo o amigo em conta, intercedeu a seu favor, livrando-o da fogueira. Galileu precisava apenas retratar-se, e foi o que fez. A famosa frase que diz “Eu nego que a terra se mova em torno do sol... mas ela continua se movendo”, é uma lenda histórica sem comprovação, mas é uma síntese do que foi realmente dito diante dos juízes inquisidores. A carta onde assina a ‘abjuração de retratação’ encontra-se, ainda nos dias de hoje, na biblioteca da Universidade de Pisa e tem a seguinte afirmação:
“Depois de três anos tornei a ler meu livro (...) e como agora reconheço, falo realmente mais vezes de tal modo, que um leitor, que não conhece minhas intenções, pode chegar à impressão de que a ‘refutação’ seja antes uma defesa do novo sistema. Fui impelido por certa vaidade de cientista, e queria mostrar a agudez de espírito tão comum a nós, cientistas”.
Era uma meia declaração de culpa, e deixou os inquisidores meio satisfeitos. Julgado e condenado, ele foi sentenciado a viver o resto de seus dias trancafiado em sua casa, em Arcetri. Um mês depois, a igreja publicou oficialmente a sentença, que dizia exatamente:
“Galilei se tornou suspeito de heresia. Existe a suspeita de ter ele defendido a doutrina falsa e contrária à Sagrada Escritura de que o Sol seja imóvel, a Terra móvel, o Sol e não a Terra é o centro do mundo e que se possa sustentar e defender como provável uma opinião ainda depois de ela ser declarada contrária à Sagrada Escritura. Desta forma Galilei incorreu nas censuras eclesiásticas das quais foi absolvido por fazer abjuração. Seu livro é proibido, ele mesmo condenado à prisão segundo o beneplácito da Inquisição e, durante três anos, rezará semanalmente os sete salmos penitenciais”.
Era o mínimo que o sadismo dos inquisidores permitia. Todas as obras de Galileu foram anexadas ao Index Librorum Prohibitorum. Aprisionado em seu próprio lar, ele continuou estudando a verdadeira ciência e teve a companhia de um brilhante aluno, Vincenzo Viviani, que permaneceu ao seu lado até o dia de sua morte. O estudioso Marcus Moreira Lassance Pimenta, em seu artigo ‘Galileu Galilei à Luz da História e da Astronomia’ usa sabiamente das palavras ao dizer que “Ele provocou os juízes por suas digressões teológicas e multiplicou seus adversários por seus modos arrogantes. Pode-se dizer: Não foi Galileu a vítima da Inquisição, mas sim a Inquisição foi vítima de Galileu, pois, sem suas provocações ela ficaria isenta do seu lamentável deslize”. Atualmente, Galileu é considerado por muitos como um anti-herói da ciência, por ter abdicado de suas verdades em detrimento da fé católica. No entanto, perguntemo-nos: quantos não abririam mão da própria filosofia ao ter que encarar a ameaça de arder em vida numa fogueira de carvalho? No entanto, se a ciência acredita precisar de um mártir, esse talvez possa ser encontrado na figura do padre Giordano Bruno (1548-1600). Aos dezessete anos, o jovem Bruno recebeu seu hábito clerical, tornando-se membro da ordem dos dominicanos. Mal sabia ele que o hábito não o livraria de tornar-se uma das mentes mais questionadoras do seu tempo. Já no claustro onde residia, costumava escandalizar seus amigos ao debater abertamente a divindade de Cristo e por demonstrar intolerância sobre os debates teológicos que eram travados. Era querido pelos seus tutores, que o consideravam uma mente privilegiada, cuja capacidade de memorizar obras inteiras assombrava a todos. Em 1575 foi levado à presença do papa Gregório XIII ( o mesmo que havia ordenado a matança dos Huguenotes) para demonstrar suas habilidades. No entanto, ao ser questionado pelo papa sobre o ‘mundo de deus’, surpreendeu a todos afirmando que acreditava que o Universo era infinito e povoado por inumeráveis sistemas planetários que continham vida inteligente. Tal idéia era considerada uma heresia, pois contradizia a máxima de que deus havia criado a Terra para o homem e que este era superior a todas as coisas. Ora, sendo essa a verdade defendida pela bíblia, qualquer outra inteligência no Universo competiria em igualdade com o Homem e este não seria o herdeiro único do reino dos céus. Portanto, foi acusado de heresia e fugiu de Nápoles (onde residia o papa na época) indo para Roma. Descoberto na capital italiana, foi acusado injustamente de assassinato e passou a viver como errante, visitando as maiores cidades da Europa e plantando a semente da dúvida por onde quer que andasse. Foi quando surgiu sua máxima: “Al vero filosofo ogni terreno è pátria” (Para o verdadeiro filósofo qualquer terreno é a sua pátria). Em suas andanças, em momento algum deixou de pensar nos mistérios do Cosmos, chegando a escrever, pelo menos, quarenta obras conhecidas atualmente. Mas sua personalidade explosiva e desafiadora não lhe permitia viver muito tempo no mesmo lugar. Criticava e ofendia a doutrina católica que queria unir o mundo numa só fé. Verdadeiro visionário, tinha uma opinião muito particular sobre a morte. “Mas enquanto consideramos mais profundamente o ser e a substância daquilo que em somos imutáveis, ficaremos cientes de que não existe a morte, não só para nós como também para qualquer substância, enquanto nada diminui substancialmente, mas tudo, deslizando no infinito, muda de aparência”. O que pensaria ele se pudesse ser transportado até os dias de hoje para verificar que suas palavras seriam comprovadas pelos cientistas modernos e que todo objeto transmuta-se, através da entropia, e que seus átomos são reaproveitados pela natureza nas mais variadas formas? Bruno chegou até mesmo a vilipendiar a teoria de Copérnico de que o Sol era o centro do Universo. Para ele, “o centro do Universo está em toda parte e sua periferia em parte nenhuma”. No mais polêmico dos seus livros, ‘Sobre o Infinito, o Universo e os Mundos, ele afirma:
“Ora, aquele que cruza o Espaço, penetrando no céu, descortinando as estrelas, ultrapassando as margens do mundo, faz com que desapareçam as fantasiosas muralhas da primeira, oitava, nona, décima, e tantas outras que os maus matemáticos e o beco sem saída da visão dos filósofos vulgares puderam agregar às esferas”.
Novamente, Bruno tateava o futuro com uma perspicácia incomum até às mais brilhantes mentes de seu tempo. As esferas aristotélicas realmente não existem e o Universo não tem um ponto central nem fronteiras. Com declarações tão audaciosas e a inquisição perseguindo-o, não conseguiu viver tanto quanto Galileu. Cansado de viver fugindo, decidiu retornar à Itália em 1592, onde foi traído pelo amigo Giovanni Mocenigo e entregue ao tribunal do santo ofício. Era exatamente o período mais devastador da inquisição. Talvez sua prisão tenha feito com que Galileu repensasse suas teses para não sofrer os castigos que foram infligidos ao visionário. Giordano Bruno permaneceu oito anos preso, sofrendo os piores castigos e torturas imaginados até então. Aos 52 anos, foi condenado à morte de ‘forma piedosa, sem profusão de sangue’, ou seja, queimando na fogueira. Ao receber a sentença, sempre arrogante, disse aos juízes: “Teme mais a igreja em pronunciar a sentença do que eu em escutá-la”. Essa era uma verdade irrefutável. Nos oito anos em que ficou preso, Bruno foi pressionado – literalmente – a abjurar de suas filosofias, pois a igreja sabia que, ao condená-lo, estaria criando um mártir do pensamento cético.
|
